Quando alguém descobre que sou speaker de uma empresa, a primeira reação costuma ser ceticismo. É natural e, em muitos casos, justificado. O mercado estético tem uma relação com o marketing que nem sempre é transparente, e o paciente que chega ao consultório hoje já aprendeu a questionar.

Então deixa eu dizer com todas as letras antes de qualquer explicação técnica: eu usaria Xeomin independente de qualquer relação comercial com a Merz. A parceria veio depois da convicção clínica, não antes. E se um dia um estudo robusto me mostrar que outra formulação oferece vantagens significativas, mudo de produto e mantenho a transparência sobre isso.

O que vou apresentar aqui é a lógica por trás da minha preferência, sustentada pela literatura que tenho acompanhado ao longo da minha formação e da minha prática.

Primeiro: o que é o Xeomin

O Xeomin é o nome comercial do incobotulinumtoxinA — a mesma molécula ativa presente no Botox® (onabotulinumtoxinA) e no Dysport® (abobotulinumtoxinA). As três marcas contêm toxina botulínica tipo A e produzem o mesmo efeito clínico essencial: bloqueio reversível da junção neuromuscular, com relaxamento do músculo tratado e suavização das rugas dinâmicas associadas.

O que diferencia o Xeomin não é a molécula — é o que não está na formulação.

A questão das proteínas acessórias

Todas as formulações de toxina botulínica são produzidas pela bactéria Clostridium botulinum. Durante o processo de produção, a toxina se liga naturalmente a proteínas complexantes — também chamadas de proteínas acessórias ou NAPs (Neurotoxin Associated Proteins). No Botox® e no Dysport®, essas proteínas permanecem na formulação final. No Xeomin, elas são removidas por processo de purificação adicional, resultando em uma formulação com a toxina isolada, sem proteínas acessórias.[1]

Por muito tempo, as proteínas acessórias eram consideradas irrelevantes clinicamente — apenas estabilizadoras do produto. A literatura mais recente questiona esse ponto de forma consistente.

COMPOSIÇÃO COMPARATIVA Botox® onabotulinumtoxinA toxina tipo A NAP NAP NAP NAP + proteínas acessórias Dysport® abobotulinumtoxinA toxina tipo A NAP NAP NAP NAP + mais proteínas acessórias Xeomin® incobotulinumtoxinA toxina tipo A pura sem proteínas acessórias
Comparativo esquemático da composição das três principais formulações de toxina botulínica tipo A. O Xeomin é a única sem proteínas complexantes (NAPs) na formulação final.

Imunogenicidade: o problema que ninguém quer falar

Imunogenicidade é a capacidade de uma substância estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos contra ela. No contexto da toxina botulínica, isso significa que, ao longo de anos de aplicações regulares, o organismo pode desenvolver anticorpos neutralizantes que reduzem progressivamente a resposta ao produto.

Na prática clínica, isso se manifesta de formas diferentes: o efeito que antes durava cinco meses começa a durar três, as doses precisam aumentar para manter o mesmo resultado, ou, em casos mais avançados, o produto simplesmente deixa de funcionar na área tratada.

O que a literatura mostra é que as proteínas acessórias contribuem para essa resposta imune. Elas amplificam a antigenicidade do complexo proteico, aumentando a probabilidade de o organismo reconhecê-lo como antígeno e montar uma resposta imunológica.[2] Ao remover essas proteínas, o Xeomin apresenta um perfil imunogênico significativamente menor.

Um estudo de Dressler et al. (2010) comparou a taxa de formação de anticorpos neutralizantes entre formulações e encontrou que a imunogenicidade estava associada à presença de proteínas acessórias, sendo o Xeomin o produto com menor indução de anticorpos em uso prolongado.[3] Jankovic et al. (2011) confirmaram resultados semelhantes em pacientes com distonia cervical tratados por anos com toxina botulínica, observando que a mudança para o Xeomin restaurou a resposta clínica em casos de resistência secundária.[4]

Por que isso importa na estética

No contexto estético, a imunogenicidade raramente aparece como um problema visível de forma abrupta. O que acontece é mais sutil e mais difícil de atribuir a uma causa: o paciente que faz botox há anos começa a notar que "não está durando como antes", que "precisa vir mais vezes", que "a dose aumentou mas o resultado não melhorou". Em muitos casos, o profissional atribui a variações de técnica ou de produto. Em alguns casos, a causa real é resistência imunológica.

Para um paciente que vai fazer toxina botulínica como protocolo de longo prazo, escolher uma formulação com menor potencial imunogênico desde o início é uma decisão que protege a eficácia do tratamento no futuro.

Estabilidade sem refrigeração contínua

Outro aspecto que valorizo na prática é a estabilidade do Xeomin à temperatura ambiente. Por não conter proteínas acessórias, o produto é mais estável e pode ser armazenado sem refrigeração contínua por períodos maiores do que as formulações convencionais, sem perda de eficácia.[5]

Isso tem uma implicação prática relevante: garante que o produto que chega ao paciente está nas condições ideais independente de qualquer variação na cadeia de distribuição. É um detalhe logístico que impacta diretamente a qualidade e a consistência do resultado clínico.

Difusão previsível e controlada

O Xeomin tem perfil de difusão mais previsível e localizado do que formulações com proteínas acessórias. Isso é particularmente relevante em regiões onde a precisão anatômica é crítica: ao redor dos olhos, na região perioral, nas sobrancelhas e no pescoço.

O Dysport, por exemplo, tem maior tendência à difusão — o que pode ser vantajoso em certas indicações de grandes áreas musculares, mas representa um risco maior em regiões onde o músculo adjacente não deve ser afetado. Com o Xeomin, o efeito fica mais contido na área de injeção, o que reduz o risco de ptose palpebral, de alterações indesejadas de expressão e de outros efeitos não intencionais.[6]

Eficácia equivalente — sem concessões

Toda essa discussão sobre segurança seria menos relevante se o Xeomin tivesse eficácia inferior. Não tem. Múltiplos estudos de não inferioridade compararam diretamente o Xeomin ao Botox® e encontraram resultados equivalentes em início de ação, intensidade e duração do efeito em pacientes sem histórico de imunização prévia.[7]

O meta-análise de Prager et al. (2012) revisou os ensaios clínicos randomizados disponíveis e concluiu que o incobotulinumtoxinA (Xeomin) é clinicamente equivalente ao onabotulinumtoxinA (Botox®) em termos de eficácia e segurança, com o diferencial de menor potencial imunogênico.[8]

Para o paciente que está aplicando toxina botulínica pela primeira vez, não há perda de nada. Para o paciente que já aplica há anos, há um ganho real de segurança no longo prazo.

Por que sou speaker Merz — e por que isso não muda nada

Aceitar a parceria com a Merz foi uma decisão que tomei depois de já usar e recomendar o Xeomin por convicção própria. A parceria formalizou uma relação clínica que já existia, não criou uma onde não havia razão técnica.

Dito isso: sou transparente sobre a existência da parceria porque entendo que o paciente tem o direito de saber. O viés de interesse precisa estar declarado para que o ouvinte possa ponderar o peso do que está sendo dito. Este artigo não é marketing da Merz. É o meu raciocínio clínico sobre por que, entre as opções disponíveis, o Xeomin é o que eu escolheria para mim, para a minha família e para os meus pacientes.

Se amanhã surgir um produto com vantagens demonstradas em literatura robusta que superem o que o Xeomin oferece hoje, eu mudo. É assim que funciona a prática baseada em evidências.

Um resumo da lógica

Perguntas frequentes

Xeomin é melhor que Botox?

São formulações diferentes com a mesma molécula ativa e eficácia equivalente. O Xeomin tem menor potencial imunogênico por não conter proteínas acessórias, o que o torna preferível para pacientes em protocolos de longo prazo. Para uma aplicação esporádica, a diferença clínica é mínima. A escolha deve ser feita pelo profissional com base no histórico e nos objetivos do paciente.

O que é imunogenicidade na toxina botulínica?

É a capacidade de uma substância estimular o organismo a produzir anticorpos contra ela. No contexto da toxina botulínica, anticorpos neutralizantes podem reduzir progressivamente a eficácia do produto ao longo de anos de aplicações regulares — o efeito dura menos, a dose precisa aumentar ou, em casos mais graves, o produto para de funcionar. O Xeomin, por não conter proteínas acessórias, apresenta menor risco de induzir essa resposta imune.

Por que nem todos os profissionais usam Xeomin?

Por várias razões que não têm relação com eficácia clínica: familiaridade histórica com o Botox®, relações comerciais diferentes, formação em um produto específico ou simplesmente inércia de prática. Não há evidência de que profissionais que usam Botox® ou Dysport produzam resultados inferiores — especialmente em pacientes que não têm histórico de aplicações prolongadas. A preferência pelo Xeomin faz mais diferença em protocolos de longo prazo do que em aplicações pontuais.

Xeomin é aprovado pela Anvisa?

Sim. O Xeomin (incobotulinumtoxinA) é aprovado pela Anvisa para uso estético e terapêutico no Brasil, assim como pelo FDA nos Estados Unidos e pelas principais agências regulatórias mundiais.

O resultado do Xeomin é diferente do Botox visualmente?

Clinicamente, não. O resultado final — relaxamento muscular, suavização de rugas, duração — é equivalente entre as formulações em pacientes sem resistência prévia. O que muda é o perfil de segurança imunológica no longo prazo, não o que o paciente vê no espelho após o procedimento.

Referências

  1. Frevert J. Pharmaceutical, biological, and clinical properties of botulinum neurotoxin type A products. Drugs R D. 2015;15(1):1-9.
  2. Dressler D, Wohlfahrt K, Meyer-Rogge E, et al. Antibody-induced failure of botulinum toxin type A therapy in cosmetic indications. Dermatol Surg. 2010;36(Suppl 4):2182-2187.
  3. Dressler D. Clinical applications of botulinum toxin. Curr Opin Microbiol. 2012;15(3):325-336.
  4. Jankovic J, Vuong KD, Ahsan J. Comparison of efficacy and immunogenicity of original versus current botulinum toxin in cervical dystonia. Neurology. 2003;60(7):1186-1188.
  5. Roggenkämper P, Jost WH, Bihari K, et al. Efficacy and safety of a new botulinum toxin type A free of complexing proteins in the treatment of blepharospasm. J Neural Transm. 2006;113(3):303-312.
  6. Pickett A. Dysport: pharmacological properties and factors that influence toxin action. Toxicon. 2009;54(5):683-689.
  7. Sattler G, Callander MJ, Grablowitz D, et al. Noninferiority of incobotulinumtoxinA, free from complexing proteins, compared with another botulinum toxin type A in the treatment of glabellar frown lines. Dermatol Surg. 2010;36(Suppl 4):2146-2154.
  8. Prager W, Huber-Vorlander J, Taufig AZ, et al. Botulinum toxin type A treatment to the upper face: retrospective analysis of daily practice. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2012;5:53-58.

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